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Etiqueta: sapatos

  • Norman Vilalta: a melhor sapataria de Barcelona?

    Norman Vilalta: a melhor sapataria de Barcelona?

    Caros amantes da vida clássica, existem sapatarias, e depois existem Sapatarias. A Norman Vilalta é uma Sapataria que não se pode perder.

    Arranjei coragem para lá entrar

    Tive a oportunidade de visitar a loja quando passei uma semana com uns amigos em Barcelona em Julho. Na minha primeira visita à cidade, no Outubro passado, dei uma vista de olhos à loja da Carmina e passei pela loja da Bexley, mas foi a Norman Vilalta que me atraiu mais. Por isso, quando voltei no verão, quase que obriguei os meus amigos a virem comigo para viverem o que é uma sapataria que está noutro patamar que o normal.

    Turquoise Chealsea boot and light brown austerity brogue shoe in the storefront of Norman Vilalta's store in Barcelona.
    Black cap-toe oxford shoe at the window of Norman Vilalta's store in Barcelona.

    Deve ter sido um espanto quando 3 rapazes e 3 raparigas novas entraram dentro da loja num dia de semana normal. Carregava comigo uma câmera fotográfica que esteve o tempo todo a fazer click. Um dos funcionários deve ter percebido que alguma coisa se passava, porque veio logo da oficina, no fundo do espaço, para a entrada do open-space.

    Fiquei perplexo quando se apresentou como o próprio Sr. Vilalta. Nesta altura ainda não tinha começado a minha página de Instagram, por isso eu literalmente um desconhecido com uma máquina nas mãos. Mesmo assim, o Sr. Vilalta foi simpatiquíssimo comigo e deixou-me fazer todas as perguntas que quis e tirar todas as fotografias, mesmo sabendo que não conseguiria comprar um dos pares de sapatos dele. Esta é a marca de um verdadeiro cavalheiro: deu do seu tempo e sabedora a quem não tinha nada para oferecer excepto um blog em Português e um ouvido atento. Mesmo assim continuámos, no seu Inglês perfeito.

    História do Norman Vilalta

    O Sr. Vilalta começou como muitos de nós: interessado e empenhado no seu emprego como advogado, mas sentia falta daquele fogo, daquela paixão, daquela satisfação de criar algo tangível para servir outros. Por causa disto, aos 31 anos decidiu sair da Argentina e estudar a arte da sapataria em Florença, Itália. Foi aprendiz de vários sapateiros famosos como o Sr. Stefano Bemer e a Srª. Dª. Saskia Wittmer, onde desenvolveu o seu próprio estilo. Dois anos depois abriu a sua própria oficina em Barcelona onde permanece até aos dias de hoje, fazendo sapatos artesanais e também vendendo a sua linha pronto-a-vestir, sempre com os materiais e detalhes mais refinados.

    Inside of Norman Vilalta's shop, with many different shoes on top of wooden boxes.
    Circular table with Norman Vilalta's shoes
    Sapatos palmilhados, também conhecidos como «goodyear welted»
    Wooden trunk with loafers, oxfords and derbies in Norman Vilalta's shop.

    O estilo característico “da casa” da Norman Vilalta

    O seu estilo é muito característico, com biqueiras quadradas e muito bem esculpidas (apesar de também ter vários sapatos com biqueiras redondas). As proporções estão sempre impecáveis, tendo-me dito que usa imenso o rácio de ouro quando desenha as suas esculturas.

    Mostrou-me o Eduardo Especial: um sapato “derby” feita de uma peça só de cabedal que só tinha uma única costura na gáspea (o corte de cabedal superior, apelidado «upper» em Inglês), no interior do calcanhar. Impressionante! Também desenvolveu um sistema de corte que garante que o contraforte, a parte do sapato que segura o nosso calcanhar, não tenha costura, que ele apelida “padrão assimétrico”, que se pode ver nestes sapatos.

    Light brown derbie from Norman Vilalta.
    É de notar que este cabedal não é envernizado: o seu brilho vem do engraxamento impecável
    Light brown derbie with a chiselled last from Normal Vilalta.
    Shoe outsole, with a closed channel and a "bottle shaped" shoe waist, from Norman Vilalta.
    A “cinta” da sola destes sapatos foi esculpida para ter este aspecto de garrafa de vinho

    Visitar a oficina

    Depois de ter visto as suas autênticas esculturas, tive a honra de poder visitar a oficina. É lá que os sapatos são todos acabados: quer a linha pronto-a-vestir Condal, quer a linha de moldes já feitos mas totalmente feita à mão 1202 Heritage Collection quer os sapatos artesanais com moldes esculpidos para cada cliente.

    Sendo sincero, estão um bocado fora do meu alcance financeiro neste preciso momento, mas quem sabe o que o tempo trará. Temos de nos fazer à vida e fazer a vida acontecer.

    Brown tassel loafer in production in Norman Vilalta's workshop.
    Notem a palmilha de acabamento acolchoada. À direita, escondida pelo pano, está uma forma feita à medida para o sapato
    Cuttting or clicking board in Norman Vilalta's workshop.
    Mesa de corte
    Eyelet press in Norman Vilalta's workshop.
    Máquina de inserir ilhéus
    Cupboard with shoes in production at Norman Vilalta's store in Barcelona.
    Outsole finishing workbench in Norman Vilalta's workshop.
    Mesa de acabamento das solas
    Polishing workbench in Norman Vilalta's workshop.
    Mesa de engraxamento e acabamento
    Norman Vilalta's hammers.
    A arte da sapataria requer muitas marteladas

    Interessei-me também por saber que pertence à Confradia de Sant Marc Evangelista dels Mestres Sabaters de Barcelona, santo padroeiro dos sapateiros, que tem uma capela na cidade que visitarei na minha próxima ida.

    Engraved shoe image in the chapel of St. Mark in Barcelona
    Sapato gravado em pedra na capela de S. Marcos

    Finalmente, acabámos a minha visita com uma fotografia inesperada na frente da loja, publicada na conta oficial da loja.

    Saí da loja a sentir-me incrível, não só por causa dos produtos maravilhosos mas principalmente pela hospitalidade do Sr. Vilalta. E esta energia vigorosa e simpática foi sentida pelos meus amigos também e falámos sobre isto enquanto comíamos uma das melhores bolas de gelado do mundo na DeLaCrem, ao virar da esquina. Por isso, aconselho vivamente que visitem a loja e se deixem levar pela sua beleza.

    Um abraço,

    Luís

  • Museu do Calçado: Visita, História e Processos de Fabrico

    Museu do Calçado: Visita, História e Processos de Fabrico

    Na Quinta-feira dia 11 de Setembro, o meu amigo Fred e eu visitámos o Museu do Calçado em S. João da Madeira. Lá aprendemos os passos da construção de um par de sapatos, a história do calçado e algumas visões para o futuro desta indústria em Portugal.

    Neste artigo, qualquer palavra que esteja entre «» é a tradução Inglêsa das palavras em Português.

    Estátua de um sapateiro en bronze.

    O Museu do Calçado situa-se no antigo edifício da fábrica da Oliva, uma marca portuguesa extremamente predominante no pós Segunda Guerra Mundial, conhecida pelas suas máquinas de costura. Noutro piso há o Núcleo Histórico da Oliva, que conta a história desta marca icónica.

    Entrada do Museu do Calçado.

    Já queria lá ir há muito tempo para aprender os termos do calçado em Português. Existe imensa literatura, vídeos e blogs em Inglês que divulgam este conhecimento nessa língua, mas em Português é algo raro. Temos a tendência de adoptar estrangeirismos quando temos termos perfeitamente utilizáveis, que é algo que pessoalmente desgosto, por isso vim cá ganhar este conhecimento. Felizmente, consegui e vou partilhar convosco em artigos futuros.

    Quando chegámos ao museu fomos acolhidos pela Srª. Drª. Raquel que muito simpaticamente se ofereceu para nos dar uma visita guiada. Quando o Fred e eu referimos que estávamos lá em nome do blog “Homem Clássico”, sugeriu chamar a responsável pelo museu no momento, a Srª. Drª. Sara Paiva, que nos levou por uma visita guiada fascinante.

    Na sala inicial está montada uma exposição experimental representando designs com materiais e padrões tradicionais, como tapete e mantas.

    Sapatilhas feitas de tapete.
    Sapatilhas feitas de tapete
    Socas

    O Processo de Fabrico de um Sapato (resumido)

    Na sala seguinte, vemos uma representação de um sapateiro tradicional a fazer sapatos à mão «bespoke», algo raro em Portugal. A Srª. Drª. Sara disse-nos que não está fácil encontrar quem continue esta arte no nosso país e que não conhecia ninguém que o fizesse ainda.

    Escultura de um sapateiro.

    Em seguida, a sala abre-se num pavilhão onde se aprende o processo de fabrico de um par de sapatos.

    Um sapato tem 5 passos de fabrico depois de se ter a forma/molde «last» pronto:

    • Modelagem «modelling/design»
    • Corte «clicking»
    • Costura «closing/sewing»
    • Montagem «lasting»
    • Acabamento «finishing»

    Muito resumidamente, primeiro escolpe-se uma forma em madeira ou em plástico na semelhança de um sapato. Em seguida, modela-se o padrão que o cabedal terá no final, em papel ou fita de pintor, desenhando as linhas de costura do sapato.

    Creadora de moldes para sapatos
    Pantógrafo, utilizado para transferir e redimensionar figuras

    Depois corta-se o cabedal na forma destes padrões, com a ajuda de uma prensa.

    Prensa de calçado
    Prensa de calçado

    Cozem-se os pedaços de cabedal que serão depois esticados por cima da forma para dar formato à gáspea «upper».

    Gaspeadeira Singer
    Gaspeadeira da marca Singer
    Máquina de montagem de calçado.
    Máquinas da montagem

    Depois, junta-se a sola «outsole» à gáspea e à palmilha de montagem «insole» através de um dos sistemas de montagem (pode ser colado, Blake, Goodyear ou qualquer outro). O tacão «heel» depois é montado. Finalmente, dão-se os toques finais: lixam-se os perfis da sola, engraxam-se os sapatos, fazem-se as marcações a laser na sola, entre outras.

    Máquina de acabamento de calçado
    Máquina de acabamento

    A Srª. Drª. informou-nos que as gaspeadeiras à mostra no passo da costura são da Singer e não da Oliva, porque a Oliva fabricava máquinas de costura para tecidos e fazendas, não para couro.

    Viagem pela História no Museu do Calçado

    Para além das primeiras duas salas, há uma terceira exposição montada em 3 corredores que apresenta a evolução do calçado: de sandálias simples, a sapatos medievais onde se cozia a sola à gáspea por fora e depois virava-se os sapatos do avesso, até ao período moderno com as construções que todos conhecemos. Foi aqui que a Srª. Drª. Sara Paiva brilhou com o seu conhecimento.

    Contou-nos que as sandálias em ouro sólido encontradas no túmulo do rei Tutankamon tinham gravadas imagens dos seus inimigos, sinalizando que o rei os “espezinhava” sempre que dava um passo.

    Contou-nos que os romanos consideravam que tapar os dedos dos pés era sinal de barbárie, porque era o que os povos do Norte faziam.

    Na época medieval, ensinou que a palavra sabotagem tem origem numa revolta em França onde os camponeses pegaram nas suas solas de madeira, apelidadas de “sabots”, e atiraram-nas ao seu senhor.

    Sapato sabot

    Na Renascença, mostrou-nos sapatos de plataforma de cortiça para as cortesãs Venezianas, que são surpreendentemente fáceis de andar, que mas os pés cansam menos se estiverem pousados em madeira quando se está parado.

    Sapatos da época da renascença

    Durante o absolutismo, mostrou-nos como os tacões vermelhos dos sapatos dos nobres próximos do rei Rei Luís XIV simboliza a todos em Paris a sua alta posição na corte. 

    Réplica de um sapato do rei Luis XIV
    Réplica de tacões da Marie Antoinette
    Réplica de um sapato feminino da corte de Luís XIV
    Sapatos dos anos 1990

    A sala das celebridades

    Na penúltima sala conseguimos ver expostos sapatos de vários designers, marcas, celebridades e políticos famosos, como o António Guterres, a Catarina Furtado e um dos membros dos Black Mamba.

    Exposição sapatos
    Sapatos clássicos masculinos

    Final da visita ao Museu do Calçado

    No final, tirámos uma fotografia que foi publicada no Instagram do Museu do Calçado e acabei por comprar o livro do museu, para referência futura.

    O museu também tem um website com uma visita virtual interactiva que se pode fazer online e que está bastante completa, nada se compara à visita do local.

    Um grande agradecimento a todos do Museu que nos deixaram gravar e tirar todas as fotografias que quisermos. Aconselho todos a irem lá, a seguir o Museu do Calçado no Instagram e a ver o vídeo que publiquei no Instagram.

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